quarta-feira, 30 de abril de 2008

SEM TÍTULO

Sem título. De volta.
Ás vezes, é necessário cortar cordões. Umbilicais.
Outra forma não há para escrever a sobrevivência.

É dificil dar às palavras um sentido que me pertença. Todas as que uso, ou sinto, são plágio puro de outros. E o sentir?

Se calhar, nem sequer existo.
E se assim for, serei invenção de ti.

De ti. Aquele(a) que alguém inventou.
Para mim?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

(...1) Incongruente!


Também eu não sei quando comecei a ter idade. Os meus dias parecem rasos de anos. De rugas. De verbos ditos no passado, copiados em vicio-jeito a quem o tempo vestiu de mal-amada. Convicção feita migalha de pão duro, coberto de bolor (?).
Do outro lado do querer, invento-me na simplicidade de um sítio sem espelhos.

Na escola, as ruas são aos milhões. E as casas-pessoas não têm número de porta, não têm caixa de correio. Por isso, sinto-me perdida. Pequena. Inexistente quase. Mendiga. E o meu entusiasmo começa a dormir em banco de jardim. Ao relento. E está frio. E está vazio.

Quase.
Talvez.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Idades (de Mia Couto)

No inicio
eu queria um instante.
A flor.


Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Abandono

As noites encostam -me ao Talvez.
Lembram-me a sua existência numa espécie de compromisso umbilical. Dever maternal da escrita. Palavras desnutridas. Enfraquecidas. Ausentes. Não sei se a culparem-me. Não sei se a suplicarem uma migalha de mim.
Mas, esta migalha não me sai da garganta. Se existir algo em mim, está para além do esófago, para além da possibilidade do regurgitado. Para além de um leite-sílaba revigorante.

Trágicas são as noites despidas de poesia, de luar e de um chá partilhado.
Trágicas são as noites nas quais me fragilizo na des-razão (minha e dos outros), na des-vontade de corrigir testes, na preocupação exacerbada de me manter íntegra no meio de tanto querer diferente.

Nada faz do Talvez lugar útil se não for comum.
Se não cheirar a bolo no forno (já agora de canela, maçã e nozes) ou a incenso Nag Champa.
Preciso de ir às compras. De cheiros e de pessoas.
Talvez, depois do Natal, traga na bagagem outras possibilidades.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

C

Lembro-me, estupidamente, do exemplo, também não menos estúpido que compara as feições dos cães com as dos seus donos (não sei se isto pode constituir uma relação inversa de protagonistas).

A escrita é assim. A tua escrita é assim. Em cada figuração estilizada das palavras que usas, adivinho os teus gestos, os teus tiques. A postura, os traços faciais.
Mais atentamente, vejo o movimento das mãos, quase a sua temperatura, quase a sua humidade. Depois, escuto o som. E o teu texto ganha expressão oral. Voz. O amanho frásico, cada conjunto de letras, é traduzido em sons saídos da tua própria boca ou garganta. Em espontaneidade, como se estivéssemos no nesmo sitio, partilhando o mesmo serão, o mesmo sofá. Quase o mesmo cigarro aspirado pela chaminé onde crepitam labaredas de conforto.
Sim. Hoje, escrevo exclusivamente para ti C. . Porque gostei de te ler. De te ouvir (embora o texto não fosse exclusivamente para mim). Depois, passados dois dias de ler o teu mail, ainda, sinto a proximidade do abraço. Que me sabe bem. Que me mima. E é bom. E é bastante.

Por isso, se este local é dedicado aos meus amigos, hoje, deixo-me ir…
E registo o Sim. Sempre.

Talvez, como acontece com os cães em relação aos seus donos, também eu seja parecida com os meus amigos.

Quem me dera!...




quarta-feira, 28 de novembro de 2007

INTIMIDADE

Escrevi o título há dias. Talvez noutra fase de lua. Já. Ainda o frio não me gelava as mãos. Ainda a janela permanecia aberta durante toda a noite. Totalmente aberta. Ainda as camisolas de manga curta ocupavam, à larga, o minúsculo guarda-roupa, improvisado, no lado de lá do quarto. Escrevi “Intimidade”. Bom título, sou capaz de dizer. Sugestivo. Aduaneiro. Fronteiriço.

Hoje, passei horas a olhar para a Lua. Numa primeira etapa, a identificar os mares e os continentes. Depois, ainda, ousei afinar a visão para ver algumas crateras. Logo a seguir dediquei atenção ao brilho. Lua grávida. Lua mulher.
Voltei a pensar na “INTIMIDADE”. Mais no sentido.
INTIMIDADE sugere-me uma viagem. Liquida. Quente. Talvez uma cama desfeita. Um colo. Talvez, apenas, um toque leve na pele ou no olhar.
Talvez, apenas, a promessa. Que se vai adiando neste calendário vazio dos dias.

O Universo é um lugar gelado…

Um lugar demasiadamente grande para me encontrar.
Ou me perder.